Auto da Alma

Este auto tem por tema a teoria cristã segundo a qual a Alma é eternamente perseguida pelo diabo e pela tentação do pecado. A seu lado caminha o Anjo Custódio que a anima e a incita ao bom caminho, mas o desfecho dessa caminhada talvez não fosse o melhor, não fora a existência de "ua estalajadeira, pera refeição e descanso das almas que vão caminhantes pera a eternal morada de Deos", ou seja, a Igreja.

É esta estalajadeira, assistida pelos quatro Doutores - Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São Gerónimo e São Tomás - que serve à alma um repasto místico: a mesa é o altar, os manjares as insígnias da paixão. Trata-se de uma alegoria que provém da interpretação, tradicional na Idade Média, da Parábola do Samaritano; o conceito segundo o qual o mundo é mero trânsito para a vida verdadeira e eterna estava profundamente enraizado na mentalidade cristã medieval.

O génio de Gil Vicente confere ao tratamento do tema uma força verdadeiramente singular: há um contraste entre a alma, o seu trâmite imaterial, aspirando ao Céu, a tudo que é elevado e nobre, e os adornos com que o Diabo a vai tentando. O facto de se ver uma alma (símbolo máximo da espiritualidade) adornar-se com braceletes, sapatos de Valência, jóias (símbolos máximos da vaidade e do transitório) cria uma tensão verdadeiramente simbólica ao mais alto nível: o da oposição entre o terreno e eo celestial. A alegoria é, pois, constituitiva da própria significação do Auto.

PERSONAGENS:

Pode ler-se no início do auto: "Este Auto presente foi feito à muito devota Rainha Dona Lianor e representado ao muito poderoso e nobre Rei Dom Emanuel, seu irmão, por seu mandado, na cidade de Lisboa, nos Paços da Ribeira, em a noite de endoenças."

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