Auto da Índia

O Auto da Índia foi pela primeira vez representado no ano de 1509, à rainha D.Leonor.

Trata-se de uma sátira social e não exaltação patriótica, como o título deixaria supor.

Apesar de termos atingido o nosso período áureo de conquistas e descobertas, e de Lisboa ser a "senhora dos mares", Gil Vicente narra, neste auto, a história de um marido enganado pela mulher enquanto anda pela Índia em busca de riqueza e lucros fáceis.

A peça começa com a lamentação da Ama (mulher) por lhe terem vindo participar que o marido já não partia, e que a armada "lançara ferro" no Restelo. A senhora decide enviar a sua criada - a Moça - ao local de onde parte a armada, para saber novidades. Quando esta regressa a anunciar que a frota que ia para Oriente "já vai lá de foz em fora", a Ama fica tão contente que lhe promete uma touca de seda.

Embora o marido lhe tenha deixado provisões para o tempo em que se ia ausentar - "trigo, azeite, mel e panos para três anos" - a Ama não pretende esperar por ele com recato. Se, antes de ele partir já o enganava, é óbvio que vai fazer o mesmo na sua ausência.

A Ama recebe em sua casa o Castelhano, que lhe faz uma declaração de amor. Agradada, combina com ele que "às nove horas e não mais" atire uma pedrinha à janela. O Castelhano retira-se e entra em cena Lemos, o outro amante, "o rascão do sobreiro", no saboroso dizer da Moça, antigo e fiel apaixonado da Ama.

Mas o Castelhano, tal como fora combinado, atira pedrinhas "à janela dos quintais". Segue-se uma movimentada cena em que a Ama fala ora com um ora com outro, enganando os dois, o que leva a Moça a dizer: "Um na rua, outro na cama".

Apesar dos votos que a esposa fazia de não contar ver o marido nos próximos tempos, certo dia, a Moça surge com a notícia de que a nau que o levara para a Índia tinha regressado e estava no Restelo.

A mulher fica desesperada e, quando ele surge, "tão negro e tostado", muda de intentos, e manda a criada comprar vinho e meio cabrito para festejar o regresso. O marido conta-lhe as tormentas que sofreu durante todo o tempo que esteve em viagem, e ela confessa-lhe hipocritamente: "e eu cá desmorocer,/fazendo mil devoções,/mil choros,/mil orações (...) pois onde não há marido,/cuidai que tudo é tristura,/não há prazer nem folgura;/sabei que é viver perdido".

Depois destes protestos de fidelidade e recato, não se esquece de perguntar se ele trouxe fortuna do Oriente. Apesar das expectativas da esposa, além das histórias para contar, o marido pouco trouxe da longa viagem. A Ama mente novamente, afirmando: "Pois que vós vivo viestes,/ que quero eu de mais riqueza?".

O auto é, portanto, uma admirável sátira em que o épico é "sacrificado" ao cómico irresistível e à crítica de costumes (tão frequente em Gil Vicente), aos amores proibidos e à leviandade da mulher, vigorosamente caricaturados pelo dramaturgo.

É, como toda a obra vicentina e como esclarece Vitorino Nemésio, "uma comédia humana de cenário bem português.

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