2.1 - Introdução ao desenho de interfaces
Quer na perspectiva comunicacional, quer na área técnica, o desenho
de interfaces tenta responder (na maioria dos casos de forma pouco satisfatória)
à necessidade de diálogo fluente entre o utilizador e a massa de
informação que a máquina disponibiliza. O processo de desenho
de interface tem uma génese conceptual na qual estão inscritos os
seguintes níveis:
nível semântico da funcionalidade
nível sintáctico da estrutura modular
nível lexical de sistemas de input e output de dados.
A recuperação dos conceitos linguísticos e da terminologia
a eles associada, indicia o desígnio de construção de uma
gramática de desenho interactivo, tema que irá percorrer as três
unidades do módulo. Considera-se, todavia, que este desejo não será
realidade imediata, dado que quer a rápida evolução tecnológica,
quer a fase de pioneirismo a ela associada, dificultam a criação
estruturada de uma gramática neste campo. A existência de uns quantos
guias de estilo são a excepção pontual para certas áreas
específicas e mesmo esses guias de estilo estão longe de se poderem
considerar consensuais, ou isentos de polémica.
Nível semântico da funcionalidade
O nível semântico da funcionalidade de um desenho de interface define
as suas coordenadas na momento da criação de uma dada aplicação
multimédia. Se, por exemplo, for decidido criar um produto na área
da medicina, o nível semântico do desenho interactivo será
naturalmente distinto daquele que se implementa para a indústria automóvel.
Isso significa que logo desde os primeiros contactos com o problema, o designer
desencadeia mentalmente modelos conceptuais que, com maior ou menor eficácia
(função essencialmente do seu nível cultural) irão
estar de acordo com uma dada mundividência e mundivivência. Tanto
o modo de ver e compreender o mundo, como a maneira de o compreender são
decisivos para o modo como o designer conceptualiza fundos, formas e objectos,
que são o panejamento do nível semântico e da funcionalidade
da aplicação que se quer construir.
Nível sintáctico da estrutura modular
Este nível aprofunda e viabiliza o nível semântico da funcionalidade
de um desenho de interface. Isto significa que o posicionamento dos objectos na
superfície do écran não é obra do acaso, nem pura
coincidência. A reflexão sobre a área semântica deve
justificar as decisões assumidas ao nível sintáctico. Portanto,
fundos, formas, metáforas, sons e animações que povoam uma
interface serão tanto mais interessantes quanto existir uma real complementaridade
entre forma, função e posicionamento no écran. Será
excelente o desenho de interface em que se conseguir uma interacção
perfeita entre sujeitos, predicados e todas as modalidades de complemento que
viabilizam e facilitam a navegação do interactor, ou seja a relação
estreita entre a função das palavras nas frase com que comunicamos
e a função dos objectos com que interagimos a nível da interface
também não deve ser obra do acaso.
Nível lexical de sistemas
O nível lexical de sistemas de input e output de dados nasce do diálogo
estreito entre o designer e o engenheiro de software. Este último desempenha
neste passo um papel tão importante como o designer, na medida em que é
da sua competência determinar o sistema de input / output de uma dada aplicação
ao mesmo tempo que determina e (de algum modo) condiciona as liberdades criativas
do designer que deverá respeitar as potencialidades e as limitações
do "motor" do aplicação multimédia. Este aspecto
deverá estar totalmente clarificado nas chamadas "especificações
de design" seja numa versão escrita, seja sob a forma de protótipo.
O binómio engenheiro de software / designer não pode jamais esquecer
que o seu trabalho visa sempre motivar e facilitar o trabalho do utilizador e
que tanto o nível semântico, como sintáctico e lexical visam,
em última análise, um dado público-alvo cujo perfil foi aprioristicamente
caracterizado pelo analista do sistema na sua relação com o cliente.
O uso de ferramentas de autor conhecidas (tais como o Photoshop, para a área
do desenho de interfaces ou o Macromedia Director para a engenharia de software)
demonstram ser úteis, tanto a nível económico, como da efectiva
realização de uma boa aplicação. Todavia, será
de considerar a necessidade da criação de rotinas específicas
de programação para os casos em que o sistema de autor não
contempla aspectos particulares do desenvolvimento da aplicação.
A partir do momento em que exista uma harmonia perfeita entre os trabalhos realizados
pelo designer de interfaces e pelo engenheiro de software, deve-se proceder a
uma primeira avaliação prototípica a fim de se detectarem,
tão cedo quanto possível, eventuais deficiências no sistema
interactivo do modelo. Alguns métodos de avaliação são
constituídos por modelos que prevêem a operacionalidade de uma dada
aplicação. Todavia, os melhores métodos de avaliação
implicam a necessidade de experimentação sistemática de modo
a obter-se uma clara visão da relação custo/benefício
das decisões assumidas..
Nesta primeira aproximação ao desenho de interfaces interessa sublinhar
que se o sistema de cooperação interactiva não estiver profundamente
enraizado numa equipa multimédia, a aplicação estará
antecipadamente condenada ao fracasso. Se, por exemplo, o trabalho do designer
de interfaces, muito embora em harmonia perfeita com o do engenheiro de software,
não respeitar as especificações e peculiaridades definidas
pela criação de conteúdos interactivos, responsabilidade
da equipa editorial, pois essa será uma razão decisiva para o falhanço
da aplicação multimédia.
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